Vamos crescendo à medida de nossos problemas, mas, nunca somos suficientemente grandes para resolvê-los. Alguns, são individuais demais para se distribuir por aí, esperando que alguém os tome pra si, e nos deixe voltar para casa sonolento após perceber as noites de sono que perdeu pensando no que há tempos, já não é mais nosso. Problemas, problema, problemas... Alguns são tão bons de se complicar, tanto, que assim que se resolve, interpretamos a solidão como outro problema carente de solução. Somos eternamente problemáticos. Uma música triste, um vinho barato, fronhas lagrimejantes... Seria ótimo saber que esses três fatores compõem em ti, o problema maior que sou eu. Saber que por um momento, por menor que seja, que alguém sofreu por nós, alivia a dor que se sente pelo mesmo.
Eu sou aquela última folha morta pelo frio do inverno que pousa sobre a enxurrada que leva o sangue congelado das flores, anunciando a ressurreição de um novo tempo mais colorido e harmonioso... Embora, eu ainda seja o ser que observa o cortejo triste da folha deserdada de sua árvore, olhos úmidos, corpo vazio e seco, tanto quanto o cadáver que a enxurrada delicadamente carrega. Volto pra casa, carregado de lágrimas e chuva, ninguém além de mim mesmo sabe identificá-las, estou livre de explicações, ambas são puras, escorrem até os lábios, provocando um gosto estranho, da neutralidade da pureza do céu ao adocicado de uma lágrima infeliz e fria. Tranco-me no quarto, fecho as janelas, cortinas, deito-me, fecho os olhos, fecho-me... Tranco-me... Deserdo-me... Despeço-me, esqueço-me... Acordo-me em sonho, guardo o cenário do espetáculo numa gaveta, recolho e arrumo os sentimentos bagunçados por ti num armário. Sento-me num banco mental, preciso descansar... Amanhã, bem manhãzinha, segundos antes de acordar, levanto-me, preparo o teatro mental para o sonho mais bonito que eu puder imaginar, recolho todos os sentimentos bagunçados numa mala qualquer e volto para realidade. Enfim, poderás me bagunçar o quanto quiser, mas, hoje, só por hoje, mereço um descanso de mim mesmo.
De: Anderson Beowulf.
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